Alckmin corre para dar uma marca à sua gestão
Crise na segurança e atraso em obras alertam governador e seu projeto de reeleição em 2014
Julia Duailibi e Bruno Boghossian, de O Estado de S. Paulo
A vitória do PT na capital paulista e a consequente
derrota do PSDB no maior colégio eleitoral do País bateram à porta do
Palácio dos Bandeirantes. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) entra na
segunda fase do seu mandato sem uma marca forte na administração, com
obras em ritmo lento e uma crise na área da segurança para administrar.
Integrantes do governo Alckmin admitem reservadamente que precisarão
aprimorar a gestão e marcar gols até 2014 para evitar que o sentimento
de mudança que marcou a eleição na capital se repita no interior - e o
governo de São Paulo, comandado pelo PSDB desde 1995, passe às mãos dos
petistas. Seria a maior derrota da oposição no País.
Aliados do governador afirmam que a administração é muito dependente
da figura de Alckmin - que já enfrenta desgastes por causa do aumento de
assassinatos na Grande São Paulo. Pesquisa Datafolha feita apenas na
capital mostrou que caiu de 40% para 29% a taxa dos que consideram o
governo ótimo ou bom.
Os principais projetos tocados pela equipe do Palácio dos
Bandeirantes, que deveriam ser apresentados como vitrine na campanha à
reeleição, em 2014, ainda patinam. O trecho leste do Rodoanel, por
exemplo, deveria ficar pronto em 2014, mas, segundo integrantes do
governo, só 20% das desapropriações necessárias e 5% da terraplenagem
foram realizadas até agora. No mesmo período, os trabalhadores das obras
do trecho sul já haviam concluído 100% das tarefas.
Os investimentos na expansão e modernização do Metrô também estão
abaixo do esperado - até outubro, foram aplicados menos de um terço dos
R$ 4,9 bilhões previstos no início do ano.
Desde junho, o tatuzão que escavará a Linha 5 está parado no terreno
da obra - deve começar a trabalhar apenas em agosto de 2013. O trabalho
também está lento na construção da Linha 17, um monotrilho que ligará o
Aeroporto de Congonhas à rede de trens urbanos. O governo diz que a obra
só ficará pronta depois da Copa de 2014, o que contraria a previsão
original.
No fim do ano passado, Alckmin havia dito que o governo começaria
2012 "pisando no acelerador" e anunciou investimentos de R$ 22 bilhões.
Integrantes do governo já admitem que apenas 65% desse valor deve ser
alcançado até o fim do ano.
Insatisfeito com o desempenho, o governador cobra que sua equipe entregue "medalhas", ou seja, marcas em suas áreas.
Alckmin convocou seus secretários no dia 9 de outubro para reclamar
que as pastas não haviam criado vitrines em dois anos de mandato. Disse
ainda que a boa avaliação que a gestão acumulava à época era fincada
basicamente na imagem de honestidade que tinha diante do eleitorado.
A interlocutores o governador criticou os secretários que são
deputados - oito deles trabalham no governo. Disse que eles tinham mais
vocação para discurso que para gerenciar o Estado.
Ações. Com a posse de novos prefeitos, em janeiro, o governo também
avalia que deverá olhar com mais atenção para o interior, onde tem força
eleitoral, para fortalecer suas vitrines por lá. Tucanos temem que o
apoio do Palácio do Planalto a projetos do petista Fernando Haddad torne
a capital uma marca para o PT.
O governo deve abrir novas parcerias público-privadas (PPPs) no ano
que vem para tentar acelerar o investimento. Há projetos para a
construção de piscinões, linhas de metrô, escolas e quatro novos
hospitais.
A cúpula do Palácio dos Bandeirantes também se debruça sobre a
segurança e os pedágios. Alckmin estuda estender ocupações policiais
como a da favela de Paraisópolis para tentar dar fim à guerra entre
policiais e criminosos. O governo aceitará a colaboração da União em
investigações sobre o crime organizado, mas tentará transferir a ela
parte da responsabilidade pelo crescimento da violência, com o argumento
de que falhas nas fronteiras permitem a entrada de armas e drogas no
País.
Para amenizar as críticas à cobrança de pedágios nas rodovias
estaduais, atribuída às gestões do PSDB, o governo vai apresentar como
solução a ampliação do sistema Ponto a Ponto, que prevê a cobrança de
pedágio de acordo com trecho percorrido.
Mudanças. Pensando nas alianças que garantirão tempo de TV na disputa
pela reeleição, o governador pretende fazer mudanças no seu
secretariado até o começo do ano que vem. As alterações nos gabinetes
levarão em conta o arco de alianças que Alckmin pretende montar para
2014. O governador pretende "amarrar" logo os partidos que hoje são
considerados amigos, para evitar troca-troca de cargos às vésperas do
lançamento das candidaturas.
Nos últimos meses, Alckmin recebeu líderes partidários no Palácio dos
Bandeirantes para discutir o apoio daqui a dois anos. Aliados do
governador admitem hoje que o prefeito Gilberto Kassab (PSD) estará com o
PT ou tentará voo solo, podendo levar consigo o PV e PP - com quem o
PSD pode se fundir.
O mesmo destino, acreditam os tucanos, deverá ter o PMDB do
vice-presidente Michel Temer e do candidato derrotado à Prefeitura
Gabriel Chalita. Restaria ao governador DEM, PTB e PPS, e a
possibilidade de PP, PSB, PRB e PR, a depender do quadro nacional, já
que são da base de apoio de Dilma.
No caso do PRB, que lançou Celso Russomanno a prefeito, Alckmin tenta
amarrar o partido e estudo ceder espaço para a sigla na reforma de
secretariado.
O governador acredita que o adversário na reeleição será o petista
Alexandre Padilha, ministro da Saúde, que deverá ser embalado na tese da
"novidade", assim como foi Haddad. A interlocutores Alckmin já
confessou preferir enfrentar Aloizio Mercadante ou Marta Suplicy, que os
tucanos chamam de "fregueses".
Para alguns aliados do governador, a tese da mudança já está em curso
pelo Estado. Em 2008, o partido ganhou em 205 cidades paulistas. Nesta
eleição, foi vitorioso em 178. Nos levantamentos entregues ao
governador, no entanto, a cúpula do PSDB paulista mostrou dados
favoráveis, como o crescimento dos eleitores governados pelo partido.
Na tentativa de preparar a reeleição, também deve haver mudanças no
comando do partido no Estado e na capital. Haverá renovação das cúpulas
partidárias em abril e maio.